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Sente-se a falta com muito mais intensidade do que se sente o gozo da presença, da satisfação, da realização

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Photo CC par Kinga Cichewicz via Unsplash

Hoje tive vontade de sofrer. Não, não. Essa vontade não surgiu por causa de distúrbios psicológicos, nem mesmo por causa de qualquer espécie de masoquismo não sexual que eu possa ter. Pode parecer estranho, especialmente em dias de aclamação da felicidade, ainda que esta seja superficial, ou resultante de sensações frívolas ou forçadas. Por isso devo e posso explicar.

Para ser sincera, confesso que estava bem e que algo deu errado. Algo que talvez fosse preciso dar errado, porém quando de fato o erro mostrou as caras, o coração mostrou estar despreparado. Então sofri. E me dei conta que mesmo sofrendo, estava feliz, pois havia reencontrado uma velha conhecida que há tempos não me visitava, cuja falta eu já estava sentindo. E eu assumo: senti saudades.

Cara tristeza, mesmo sofrendo pela sua presença, estou feliz. Feliz pelo reencontro, pois senti falta daquela melancolia, daquela dorzinha gostosa que só você traz e que nos faz pensar. Refletir, contemplar, suspirar, desejar. Convenhamos, não é necessário nenhum sofrimento trazido pela sua presença para que alguém possa parar e refletir sobre sua própria vida, mas bem se sabe que somos humanos. Não refletimos na glória. Eternos em conflitos, perdidos em angústias e guiados por desejos que não podem ser satisfeitos se contamos preservar nosso equilíbrio.

Meus caros… Existe algo mais autêntico que a dor? Se existe, com certeza não tem o mesmo valor para nossos insanos corações. Impressionante que quando se tem algo, o valor nunca é muito grande, mas vá lá deixar faltá-lo para se perceber o rasgo no peito. Nós sentimos a falta com muito mais intensidade do que sentimos o gozo da presença, da satisfação, da realização!

E se não houvesse dor?  E se não existissem lágrimas? E se nosso peito não ardesse nunca? Deus me livre viver sem sofrer. Deus os livre também. É no caos é que se cria. Dê a um sujeito tudo o que ele sempre quis e estará o pobre condenado ao desespero de nada mais desejar. Viverá o infeliz “feliz” numa constante e inalterada alegria, que obviamente pouco terá de feliz. Deixa o homem de existir quando este nada tem para desejar.

A plenitude não é humana. A satisfação tão pouco. Tão clichê não? Mas o que seriam dos momentos felizes, leia-se momentos de satisfação ou de realização se não fossem as perdas, as faltas e as sempre tão sentidas ausências? Que valor teria aquele copo de água gelada no meio da tarde calorenta de verão, se não sentíssemos sede? Com toda certeza, o valor não seria o mesmo.

Dizem que quando os Deuses querem nos castigar eles são cruéis. Eles nos dão tudo que queremos. Então, passamos a nada mais querer ou pior: tudo aquilo antes tão querido torna-se trivial.

Por isso digo: vez ou outra sou capaz de agradecer aquela pontada de tristeza a me cutucar. Sou capaz de sentir especial prazer em ver um sonho não se concretizar ou em olhar para trás e ver o que de bom poderia ter sido, mas não foi. E se a falta me atormenta, bem sei que a falta de ter falta seria muito pior. Gosto de corajosamente dizer à dor que entre sem bater, que venha quando tiver de vir e que me permita ver toda singularidade que só ela pode trazer.

Inegável que sem ela não teriam sido escritos os mais belos poemas, as mais desconcertantes e sinceras cartas de amor, bem como não existiriam tantas lindas canções. Que seria de “detalhes tão pequenos de nós dois” se não fossem as lembranças de algum amor perdido do Roberto? Se não fosse a amada que foi embora, para quem ele deseja que se lembre das palavras de amor ditas ao pé do ouvido?

E a dor tem outras vantagens. Nela nada é temido. Tudo se sente e nada se espera. Não se sofre pelo temor de ver a felicidade ir embora; apenas deixa-se sangrar gota por gota até que tudo passe. Por isso, aproveito o instante para me romper em lágrimas. Ao som ou em companhia de qualquer outro sofredor, de peito tão rasgado como o meu.

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Auteur :

Atipique. Rêveuse. Curieuse. Bavarde. Fascinée par l'exotisme. Passionnée de l'art, de la vie et de ses nuances. Pensive. Chanteuse (sous la douche). Citoyenne du monde. Mon rêve : être poliglote. Fan de culture d'enciclopédie et jardinière de temps en temps.

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